Rumores de outro mundo. De acordo com a mitologia grega, houve uma época em que as pessoas sabiam com antecedência o dia exato da morte. Todos sobre a terra viviam com a profunda sensação de melancolia, pois a mortalidade era como uma espada suspensa sobre eles. Tudo isso mudou quando Prometeu introduziu a dádiva do fogo. Agora os humanos podiam ir além de si mesmos e controlar seus destinos; eles podiam se empenhar para ser como os deuses. Tomadas pela emoção causada pelas novas possibilidades, as pessoas logo perderam o conhecimento do dia da morte
Será que nós, modernos, perdemos ainda mais do que isso? Será que perdemos totalmente a percepção de que vamos morrer?
Apesar de alguns autores afirmarem exatamente isso (tal como o teórico social Ernest Becker em A negação da morte,1 descobri por trás do ruído da vida cotidiana rumores de outro mundo que ainda podem ser ouvidos. Os sussurros da morte persistem e os ouvi, creio, em três lugares inesperados: numa academia, num grupo de ativistas políticos e num grupo de terapia de grupo de um hospital. Detectei até mesmo nuanças — mas apenas nuanças — de teologia nesses lugares inesperados.
Entrei para uma academia em Chicago depois que uma lesão no pé obrigou-me a buscar alternativas para a corrida. Levei um tempo para me adaptar à artificialidade do local. Os clientes ficavam em fila para usar equipamentos cheios de tecnologia, que simulavam a prática do remo. Eram completos, com telas de vídeo e barcos a remo animados,
O apóstolo Paulo escreveu estas palavras para pessoas que, como nós, realmente não conseguem imaginar o bem sem que haja uma armadilha em algum lugar:
Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa [a despeito de todos os esforços feitos na academia de ginástica para reverter à entropia], contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação [Leve e momentânea! As vezes em que Paulo ficou preso, foi espancado e naufragou me lembram das histórias de prisioneiros torturados que ouço na Anistia Internacional] produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que não se vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas…
Sim, precisamos de uma percepção renovada da morte. Mas precisamos de bem mais do que isso. Precisamos de uma fé, em meio aos nossos gemidos, de que a morte não é a última palavra, mas a penúltima. O que é mortal será engolido pela vida. Um dia todos os sussurros da morte tombarão silentes.
FONTE:Solomon/RVE News
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